BIM: transparência e controle

A inovação disruptiva que avança no setor da Construção: este é o BIM (Building Information Modelling ou Modelagem da Informação da Construção).

O BIM trata-se de um conjunto de processos apoiados por software que permite construir um modelo 3D da edificação e a ele agregar todas as informações de cada componente da obra: de sua resistência estrutural à cor de acabamento, do fabricante ao preço, da data da execução ao procedimento de manutenção do componente.

O modelo BIM é completo e pode abranger arquitetura, estruturas, instalações prediais e até paisagismo. Numa indústria pouco afeita ao planejamento rigoroso e acostumada com estouro de prazos e custos, o BIM tem efeito disruptivo pois permite adotar na concepção de edifícios a mesma tecnologia utilizada nas indústrias automobilística e aeronáutica. Os resultados, como já reportados por algumas incorporadoras e construtoras pioneiras nessa técnica no País, são aderência rigorosa ao cronograma e ao orçamento – ou, muitas vezes, até com redução – e produtos de melhor qualidade para o consumidor final.

Hoje, o controle de custos e prazos, num ambiente de negócios extremamente competitivo e com margens de lucro reduzidas, a diminuição de riscos do empreendimento e a garantia de entrega do imóvel ao cliente na data contratada certamente são estratégicos para o setor.

Outro exemplo de seu potencial impacto no mercado imobiliário: aceleração do processo de licenciamento com a automatização da verificação das regras do código de obras, que pode fazer com que o tempo para emissão de alvará seja reduzido de vários meses para apenas 15 dias ou menos. Essa aplicação do BIM já está em análise em pelo menos duas grandes capitais brasileiras.

Uso do BIM no Brasil

O uso do BIM no Brasil começou há quase 10 anos atrás, tendo boa evolução, porém foi bruscamente interrompido pelo agravamento da crise, da qual o setor ainda luta para sair. Hoje o país ainda ocupa lugar de destaque na América Latina na adoção do BIM, mas está bastante atrasado em relação aos países mais avançados.

No entanto, quando a construção civil retomar o nível normal de atividade, nosso estágio de maturidade, conhecimento e preparação para praticar o BIM estará num patamar muito mais elevado do que se encontrava quando estagnou. Deveremos ter um desenvolvimento exponencial, apesar do desmonte que se observou em muitos escritórios com o recrudescimento da crise. P

Disseminação. Paradoxalmente, a dissolução de equipes consolidadas em grandes e médias empresas pulverizou o conhecimento BIM para escritórios menores, ao mesmo tempo em que o aumento do desemprego entre técnicos do setor incentivou a procura por parte desses profissionais por capacitação no período ocioso, bem como criou oportunidades para empresas menores iniciarem suas experimentações com o BIM.

Somado a isso, em junho do ano passado, o governo federal instituiu o Comitê Estratégico de Implementação do BIM, composto por representantes de cinco ministérios, além da Casa Civil e da Secretaria Geral da Presidência, e, ainda, assessorado por vários grupos técnicos e administrativos. Sua meta é propor, no âmbito do governo federal, a estratégia nacional de disseminação do BIM no Brasil, a ser apresentada em meados deste ano de 2018.

A consequência principal será a exigência futura desta metodologia em obras federais, como já ocorre em países mais desenvolvidos. Nada mais salutar neste momento em que transparência e controle de aditivos em obras estatais é um clamor público.

Apesar de a obrigatoriedade se dar apenas no âmbito público, a experiência internacional mostra que a expansão do uso voluntário em obras privadas é a regra, dada a aquisição de know-how e a constatação dos seus bons resultados pelos empreiteiros.

Começar a trilhar o caminho da implantação de BIM o quanto antes é estratégico. Quando se der a retomada dos negócios, pode não haver tempo para recuperar o atraso em relação aos que reconheceram mais cedo o rumo inevitável que a construção tem tomado.

 

 

Fonte:

· O Estado de S. Paulo. –  11 de Março de 2018

Colaborador:

· Eduardo S. Toledo – Professor Doutor do departamento de engenharia de construção civil da Escola Politécnica da USP.
· E-mail: etoledo@usp.br