Universidades aderem sustentabilidade como tema essencial na formação de novos profissionais

Conceito sustentável permeia toda a grade programática dos cursos de graduação de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo.

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Embora seja importante que todas as profissões tenham suas próprias responsabilidades quando o assunto é desenvolvimento sustentável, algumas atividades têm peso maior nesta equação, como é o caso das que estão relacionadas ao setor da construção civil.

Por ser um mercado altamente impactante ao meio ambiente – até mesmo por negligência de parte de seus profissionais que não dão o devido valor às questões sustentáveis –, é essencial que se formem profissionais com um viés mais preocupado com questões ambientais, sociais e financeiras.

Os cursos de graduação de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil – duas das mais importantes atividades do setor construtivo – adotaram um grande senso de responsabilidade ao tratar do tema. A formação de novos profissionais já se preocupa em desenvolver conceitos e atitudes sustentáveis, que serão colocadas em prática no mercado de trabalho.

Diante de diversos acontecimentos que impactam negativamente o meio ambiente no nosso País – como, os recentes casos de rompimento das barragens em Minas Gerais, formação de enchentes em grandes centros urbanos e o viaduto que cedeu 2 metros em plena Marginal Pinheiros, em São Paulo –, o planejamento e a qualidade das construções e das cidades acabam sendo colocadas em cheque.

“A nossa consciência quanto à sustentabilidade e a sistematização destas questões mudaram durante a última década. Se antes eram mais subjetivas, agora, pela iminência destes exemplos, elas são urgentes e obrigatórias. Estamos formando profissionais que vão atuar no nosso futuro imediato e eles precisam de conhecimento para trabalhar no mercado da construção sustentável”, afirma Valéria Fialho, coordenadora do bacharelado em Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Senac.

Segundo ela, é inevitável falar em sustentabilidade durante toda a grade programática do curso. “Todas as disciplinas carregam um pouco do debate sustentável, principalmente no que diz respeito aos impactos ambientais de cada uma delas e a melhor forma de remediá-los”, completa.

Valéria comenta que a última turma do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Senac apresentou diversos Trabalhos de Conclusão de Curso que apontam para o viés sustentável – entre eles estão temas como benefícios do bambu na construção, utilização de resíduos plásticos para a produção de novos materiais e projetos arquitetônicos de resorts sustentáveis.

“O próprio aluno está encontrando no seu cotidiano assuntos que entram em discussão. Ele enxerga a sustentabilidade como um valor para a sua vida e carreira. Nós vemos notícias de desastres ambientais e construtivos a todo instante. São assuntos contemporâneos que levamos para debates dentro das salas de aula”, completa Valéria.

 

Requisito inicial e obrigatório

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O mesmo se pode dizer do curso de graduação de Engenharia Civil. A sustentabilidade é parte recorrente no trabalho de engenheiros, que buscam formas harmoniosas de conciliar o crescimento de maneira sustentável.

“Tornar a sustentabilidade um requisito inicial de qualquer tipo de projeto de engenharia civil é essencial para alterar a situação atual da sociedade, onde ainda há um grande impacto ambiental e econômico na realização de qualquer obra”, diz o Prof. Dr. Ely Antonio Tadeu Dirani, coordenador do curso de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) é outra universidade que aborda o tema no decorrer do seu conteúdo programático. A Profa. Dra. Ana Rocha Melhado ressalta, porém, que é importante que o aluno vá atrás de conhecimento também fora das salas de aula, com o intuito de criar raízes que possam ser expandidas para atitudes cotidianas como cidadãos.

“A real importância está na formação do indivíduo, que, associada aos conceitos aprendidos em sala de aula, transformará o aluno em um profissional completo, com visão holística, antenado às tendências internacionais, podendo atuar como engenheiro não apenas no Brasil, mas em qualquer outro país que pratique e respeite os princípios do desenvolvimento sustentável”, afirma a Profa. da FAAP.

Embora a área da construção civil no Brasil tenha certa resistência para assimilar algumas mudanças, a inerente alteração do quadro de profissionais devido à formação sustentável que se está desenvolvendo já nas faculdades levará a mudanças positivas no perfil do setor em um determinado momento.

 

Mudança de paradigma

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Nos últimos 10 anos, muita coisa aconteceu em relação à sustentabilidade. Sem dúvida, uma das grandes alterações foi o avanço tecnológico, que possibilitou diminuir o impacto ambiental, o consumo de recursos naturais e os desperdícios em canteiros de obras.

“Novos engenheiros e arquitetos, contaminados desde a sua formação com conceitos de produção enxuta e sustentabilidade, devem causar impactos bastante positivos no mercado de green building. Estes pontos passaram a ser exaustivamente explorados em salas de aula e nos projetos realizados pelos alunos”, afirma Ely, coordenador na PUC-SP.

Wolf Steschenko, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP, também comenta as mudanças no mercado e, consequentemente, nas universidades. “É engraçado que quando me formei, há quase 40 anos, estas questões eram consideradas inovadoras por algumas pessoas e absurdas por outras. Hoje, são necessárias e basicamente obrigatórias”, diz.

Muitos destes alunos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil logo estarão trabalhando em construtoras, escritórios de projetos, órgãos públicos e consultorias, sendo responsáveis por obras e planejamento urbano de cidades, por exemplo.

Por isso, é fundamental que eles estejam cientes das questões relacionadas à sustentabilidade, seja nos âmbitos ambientais e sociais seja no financeiro. “O que ensinamos nas faculdades cria uma concepção de um mundo mais sustentável”, completa Wolf.

Um aluno bem preparado certamente vai conseguir espaço no mercado de trabalho, que, atualmente, exige cada vez mais esta qualificação e comprometimento. Afinal, a sustentabilidade também se tornou uma forma de valorização comercial e institucional no mercado. Profissionais que não se atentarem a estas questões vão ter cada vez menos espaço no mercado de trabalho.

“É fundamental demonstrar os aspectos econômicos envolvidos para os estudantes em formação. A sustentabilidade não torna necessariamente mais caro um projeto. Na verdade, busca-se mostrar que, sob vários aspectos, é possível ter uma significativa redução de custos em obras que consideram a questão ambiental e a sustentabilidade como critérios iniciais do projeto”, explica o Prof. Ely, da PUC-SP.

 

Especialização

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O estudante que deseja avançar em seus estudos tendo a sustentabilidade como foco principal tem a disposição alguns cursos de especialização, no entanto, é essencial que desde a graduação o interessado busque programas que já estejam sintonizados com esta nova realidade.

Vale ressaltar que instituições de certificações sustentáveis – como a Fundação Vanzolini e o Green Building Council Brasil – e órgãos de classe – como o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) – realizam constantemente cursos voltados para a especialização em quesitos sustentáveis.

“Nós desenvolvemos o tema na sua essência, no entanto, o profissional ainda precisa de ferramentas para aplicar no mercado de trabalho”, finaliza Valéria.

A especialização não pode ser vista somente como um curso e, sim, como uma atualização contínua durante e após a formação. “O principal caminho é a leitura, visitas técnicas, viagens nacionais e internacionais, buscando adquirir e trocar experiências com estudantes, professores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas, não apenas em Engenharia”, explica Ana Melhado, professora no curso de Engenharia Civil na FAAP.

Se especializar em sustentabilidade, com certeza, vai abrir muitas portas para estes futuros profissionais. Afinal, este é um assunto que veio para ficar e que cada vez mais ganha espaço na sociedade, seja dentro do ambiente corporativo seja entre a população. Ter estes conceitos intrínsecos no perfil profissional e estar preparado para colocá-los em prática são excelentes formas de alavancar o currículo.

As possibilidades de atuação tanto de engenheiros quanto de arquitetos e urbanistas são bastante expressivas, já que estes profissionais podem trabalhar como empreendedores, incorporadores, projetistas, construtores e consultores, além de atividades voltadas para o lado acadêmico, como professor e pesquisador.

“Não há limites de atuação. O tema da sustentabilidade não deve ser tratado como um modismo e, sim, como uma importante variável no mundo dos negócios. Obras não sustentáveis não são lucrativas, simples assim. Este novo profissional deve estar constantemente preocupado em reduzir os impactos ambientais, de maneira global, em qualquer projeto em que seja o responsável”, finaliza Ely.

 

Conteúdo: VIBCOM