O que é retrofit? Entenda quando o recurso é mais viável

Retrofit é um processo de atualização e remodelação do uso de edifícios, diferente de uma reforma comum.

retrofit

 

Retrofit é um termo que escutamos bastante no setor de construção civil, no entanto, ele ainda deixa algumas dúvidas nos profissionais do mercado, principalmente quando abordarmos o seu aspecto conceitual. Afinal, o retrofit pode ser comparado com uma simples reforma de edifícios? Qual é a sua finalidade? Conversamos com a engenheira Dra. Clarice Degani, coordenadora executiva do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) para esclarecer estas e outras questões.

A palavra foi criada a partir da junção de dois termos: “retro”, do latim, que significa movimentar-se para trás; e “fit”, do inglês, que significa ajustar-se. A tradução livre em português é “reconversão”, que na arquitetura significa intervenção em um espaço visando o reaproveitamento do acervo arquitetônico. De acordo com estudos realizados no âmbito dos comitês temáticos do CBCS desde 2013, o retrofit é a intervenção realizada em edifícios com o objetivo de incorporar melhorias e alterar seu estado de utilidade.

Esta definição está em conformidade com o que a Norma de Desempenho (NBR 15.575) diz sobre o termo construtivo: “Remodelação ou atualização do edifício ou de sistemas, através da incorporação de novas tecnologias e conceitos, normalmente visando à valorização do imóvel, mudança de uso, aumento da vida útil e eficiência operacional e energética”.

Ainda segundo o CBCS, o retrofit é uma técnica pouco disseminada no Brasil e diversos fatores podem ser apontados como obstáculos, como a difícil conta para obter o retorno financeiro – especialmente quando comparado com empreendimentos novos –, ausência de legislação específica – uma vez que as atuais não fazem distinção clara entre reforma e retrofit –, escassez de recursos tecnológicos disponíveis – sendo que a maioria é inadequada a obras em edificações existentes e mais voltada para edificações novas – e a falta de familiaridade com essa prática por parte de projetistas e da indústria.

“Existem diversas maneiras de denominar as intervenções em edificações já existentes, as quais podem ser ampliações, reformas em revestimentos, substituição de equipamentos, modificação na configuração de ambientes, substituições de sistemas prediais para melhorar a adequação aos usos e necessidades de seus ocupantes, enfim, uma série de medidas que apenas farão sentido se executadas com a finalidade de prolongar a vida útil da edificação ao mesmo tempo em que a torna mais adequada aos usos de seus espaços e ao bem-estar e saúde de seus ocupantes”, explica Clarice Degani.

Vale destacar que o retrofit não está voltado apenas para a recuperação de um patrimônio subutilizado ou totalmente inutilizado na escala de edificações, podendo se estender, também, ao entorno urbano.

 

Benefícios

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Uma edificação naturalmente já possui um longo tempo de vida útil, porém, é certo que apareçam algumas deteriorações tanto na estrutura quanto nos materiais utilizados com o decorrer das décadas, bem como tecnologias que se tornam ultrapassadas em decorrência de novas atualizações e soluções. Diante deste cenário, o retrofit surge como uma opção para dar uma nova injeção de gás ao empreendimento sem ser necessário começar tudo do zero.

“De imediato têm-se o reaproveitamento e o prolongamento da vida útil dos diversos elementos construtivos já presentes na edificação. A esse fato sobrepõem-se a possibilidade de haver valores culturais ou históricos cunhados em seus ambientes, sistemas e arquitetura”, diz Clarice, coordenadora executiva do CBCS. “As impressões da edificação sobre a cidade também podem trazer significados importantes. Se o imóvel está bem avaliado do ponto de vista patrimonial, também há o benefício econômico na otimização de recursos”, completa.

No entanto, é prudente dizer que é difícil dimensionar qual é o aumento exato de vida útil de uma edificação que passa pelo processo de retrofit. O ambiente de uma construção é constituído por uma série de sistemas que possuem elementos de duração diferentes entre si, mas, sempre, dependentes de rotinas de conservação preventiva e manutenção para manterem o bom desempenho.

“Este trabalho é essencial para a longevidade das edificações e seus sistemas. A perenidade de um edifício também varia conforme a sua tipologia e a dinâmica na forma de uso de seus espaços, podemos estar tratando de uma escola que amplia ou reduz os grupos de alunos e cursos que atende ou de um hotel que precise estar alinhado com as tendências internacionais”, exemplifica Clarice.

Entre os principais benefícios do retrofit, estão:

• Reaproveitamento de estruturas e ambientes construtivos originais para novos usos;

• Restauração de sistemas e tecnologias já existentes no prédio;

• Inclusão de novas soluções, mais sustentáveis e tecnológicas, que podem elevar o desempenho do edifício;

• Aumento de vida útil de edificações mais antigas;

• Preservação de patrimônio histórico e do conceito arquitetônico;

• Valorização do imóvel no mercado imobiliário.

 

 

Estudo prévio é essencial

A preservação do conceito arquitetônico é uma das características do retrofit, que trabalha em prol de melhorias e aprimoramentos em edificação – ou em parte dela –, mas não altera as suas características estruturais. No entanto, é importante ter um estudo prévio para entender porque aquelas características devem continuar na sua formatação original.

“Antes do ‘como’, é preciso entender ‘por que’ conservar o conceito arquitetônico original de uma edificação. Deve haver relevância e certa unanimidade na percepção dos conceitos presentes a preservar ou até mesmo motivações para transformá-la”, diz Degani.

Cada caso é único, assim, o retrofit não deve ser entendido como via de regra. É preciso estudar o projeto para saber se a obra é viável e em quais pontos do empreendimento ela se faz mais necessária. O ideal é envolver os proprietários do imóvel, seus diversos usuários e, principalmente, os responsáveis pelas atividades de gerenciamento de facilities do edifício, para que, dessa forma, a decisão tomada seja a mais acertada.

“Tudo precisa fazer sentido, seja por uma questão intuitiva seja por valor econômico. Não se trata apenas de modernizar prédios antigos a qualquer custo, há que se dimensionar e comparar os impactos ambientais decorrentes das diversas opções disponíveis, justamente com os usos a que se propõe e as suas necessidades funcionais, sanitárias e de segurança”, alerta Clarice.

Em alguns casos, a demolição pode até mesmo ser a solução de menor impacto após todos estes aspectos serem considerados. Contudo, vale ressaltar que o retrofit caminha para um entendimento maior do seu escopo e finalidade. O trabalho realizado pelo comitê temático do CBCS aponta para algumas ações fundamentais que podem ajudar neste desenvolvimento: coletar informações sobre experiências anteriores que demonstrem os benefícios ambientais e sociais em seus cenários e que possam ser adotados na realidade brasileira; trabalhar com sinergia e colaboração entre projetistas e especialistas de diversas áreas para desenvolvimentos da parte técnica e de soluções arquitetônicas; identificar potenciais estímulos econômicos que tornem viável e atrativa a prática, entre outras ações.

 

 

Conteúdo: VIBCOM