Conforto acústico é essencial para o bom desempenho de edifícios residenciais

Para alcançar bons resultados em conforto acústico, o ideal é envolver o projeto desde a fase de estudo preliminar do empreendimento.

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Buzinas de carros, pessoas falando alto ou andando de um lado para o outro, música em alto volume… Imagine todos estes sons invadindo a sua casa enquanto você tenta apenas descansar e aproveitar o seu momento de lazer. Esta é uma situação comum em edifícios residenciais que não possuem o tratamento e conforto acústico adequado.

A condição ideal de conforto é aquela na qual os estímulos percebidos pelo organismo humano são traduzidos em forma de sensações positivas. Essas sensações são subjetivas e variam de um indivíduo para o outro, conforme sua idade, cultura e, até mesmo, experiências pessoais.

De forma mais objetiva, Débora Barreto – diretora-técnica da Audium e mestre em engenharia ambiental urbana, na área de poluição sonora pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) – nos explica: “A condição ideal de conforto acústico é definida quando não estamos expostos a ruídos que ultrapassam os níveis recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ou seja, quando não impacta a nossa saúde e não nos proporciona estresse”.

O conforto acústico em um edifício residencial deve, basicamente, proporcionar privacidade e não causar incômodo na vizinhança. Por exemplo, o morador de um apartamento não deve elevar o volume da sua voz para se fazer entendido durante um diálogo por conta de ruídos externos; assim como o barulho vindo de vizinhos deve ser incompreensível, ou seja, o ideal é que não seja possível identificar o que a pessoa está falando ou ter clareza do aparelho que está transmitindo o som.

 

Estudo prévio

Para determinar o desempenho acústico em edificações residenciais, a construção civil brasileira segue a norma técnica ABNT NBR 15575, que define critérios de desempenho para novos empreendimentos. Entre as exigências estão os níveis mínimos de isolamento acústico para fachadas e coberturas.

É fundamental que o projeto acústico seja feito ainda na fase de estudo preliminar da edificação para que seja eficaz. A análise do contexto deve levar em consideração o entorno da construção – que avalia a existência de ruídos vindos de sistemas de transporte e tráfego urbano, por exemplo – e a implantação do edifício – ou seja, seu posicionamento e geometria, que influenciam diretamente o projeto arquitetônico e, consequentemente, no conforto ambiental.

“O estudo deve envolver simulações, contagem de veículos e medições sonoras em pontos e horários específicos em um raio de cerca de 200 metros no entorno do empreendimento, englobando as principais fontes de ruído, como vias de tráfego e outras fontes pontuais. Deve-se observar também a proximidade com estádios e aeroportos”, explica Débora.

A partir de dados levantados por meio de simulação computacional é possível adquirir níveis maiores de confiança quanto à propagação dos ruídos. “Estes registros são utilizados para calibração de mapas acústicos da região e cálculos de propagação de ruído para a edificação receptora. É um trabalho técnico que faz uso de equipamentos específicos, demanda tempo e deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar”, completa a diretora-técnica da Audium.

Em tempo: a Associação Brasileira para a Qualidade Acústica – ProAcústica – disponibiliza o Manual ProAcústica para Classe de Ruído das Edificações Habitacionais, um guia prático de orientação para classificação acústica de habitações, fachadas e coberturas. Faça o download gratuito neste link. http://www.proacustica.org.br/publicacoes/manuais-tecnicos-sobre-acustica/manual-proacustica-classe-de-ruido.html

 

Fontes de ruídos

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A transmissão de ruídos pode ser dividida em dois tipos: de impacto e aéreo. O ruído de impacto acontece quando um objeto vai de encontro a outro, criando uma massa sonora. No caso de unidades habitacionais, isso ocorre quando um objeto no interior de casa bate com a estrutura da edificação. Por exemplo, o impacto de um sapato sobre o piso, de um martelo na parede, de portas fechando, entre outros.

Já o ruído aéreo é aquele som propagado pelo ar e fica ecoando pelo espaço, adentrando os edifícios através da estrutura predial – seja pelas coberturas seja pelas paredes. Por exemplo, o barulho do trânsito nas ruas, de um avião passando pela região ou de discussões em alto tom de voz de apartamentos vizinhos.

Segundo Carolina Monteiro, arquiteta que atua na coordenação de pesquisas e desenvolvimento da Harmonia Acústica, o isolamento acústico trata, necessariamente, de dois ambientes distintos, um emissor e outro receptor do ruído. “O isolamento sonoro é a defesa contra o ruído externo, que deve ser eliminado ou atenuado. Nem sempre será possível eliminar por completo o barulho, no entanto, ele deve chegar a um nível em que não causa desconforto ao morador da residência”, diz.

O isolamento do som é alcançado por meio de um conjunto de soluções adequadas para cada caso, que deve levar em conta o projeto arquitetônico, sistemas e materiais construtivos e a implantação da obra. “Não existe uma solução melhor que a outra, nem uma receita pronta. O ideal é determinar um projeto de acordo com os estudos prévios realizados”, afirma Carolina.

A profissional também se atenta para a diferença entre o isolamento e a absorção sonora, que se refere à qualidade acústica interna de um ambiente. Neste caso, deve-se buscar a condição ideal de reverberação do som, de acordo com o espaço em questão, através de soluções que absorvem o som e impedem que ele se propague pelo ar por muito tempo e com grande intensidade.

Atualmente existem diversas soluções disponíveis no mercado que garantem eficiência acústica. No que tange ao isolamento acústico, é possível encontrar: mantas resilientes aplicadas entre a laje e o contrapiso; paredes simples compostas por blocos densos ou paredes duplas; forros estanques suspensos; janelas e portas com boa vedação das frestas; tubulações com sistemas de desacoplamento rígido; e máquinas dotadas de elementos anti-vibratórios.

Em caso de paredes geminadas entre apartamentos, as mesmas devem ser executadas da laje de piso até o encontro completo com a laje de teto. Em estruturas de alvenaria de bloco, é preciso se atentar a aplicação de argamassa nas juntas verticais e horizontas para evitar a formação de frestas. Já em paredes drywall, o cuidado deve ser com as aberturas de caixas elétricas. “Vale ressaltar que no caso de paredes geminadas entre dormitórios, onde a exigência do isolamento sonoro é maior, a tendência é o uso de paredes duplas”, diz Débora Barreto.

“O edifício é como um organismo vivo. Se há interferência sonora entre os apartamentos, temos uma doença construtiva. Já existem softwares, por exemplo, que conseguem prever o comportamento acústico das partições construtivas ainda em fase de projeto, possibilitando soluções otimizadas para cada situação e evitando interferências futuras”, completa a executiva.

 

Sustentabilidade

A falta de conforto acústico pode ocasionar muitos problemas para os moradores de edifícios residenciais. Segundo Carolina, da empresa Harmonia Acústica, os primeiros sintomas são alguns incômodos e irritabilidade, que estão relacionados mais com um aspecto psicológico do ser humano.

No entanto, com o passar do tempo, o problema pode se agravar e acabar resultando negativamente na saúde física dos moradores. Diversos estudos relacionam a exposição prolongada ao ruído a doenças como ansiedade, problemas auditivos, digestivos e, até mesmo, cardíacos.

“Alcançar níveis ideias de conforto acústico para os moradores de prédios residenciais também é uma forma de atingir sustentabilidade no projeto, uma vez que estamos criando ambientais mais saudáveis para se viver”, finaliza Carolina.

 

Conteúdo: VIBCOM